E se o papel do jurídico não fosse proteger?
- BOG Advogados

- há 2 dias
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Assisti recentemente a uma palestra sobre Governança e Compliance. Aproveitando o clima de Copa do Mundo, o palestrante montou um campo de futebol para representar o posicionamento das diversas áreas da empresa. Marketing, financeiro, recursos humanos... cada qual ocupando sua posição. Quando chegou ao departamento jurídico, ele apareceu no gol. Ao lado, uma única palavra: proteção.
A imagem fez sentido para praticamente toda a plateia. Afinal, fomos treinados durante décadas para acreditar que é exatamente esse o papel do advogado: proteger a empresa dos riscos. Mas confesso que aquela figura me causou um certo desconforto. Não porque esteja errada. Talvez porque esteja incompleta.
Nos últimos anos, especialmente durante minha pós-graduação em Transformação de Conflitos e Estudos de Paz e nas formações em Comunicação Não Violenta, facilitação de grupos e mediação, comecei a questionar a própria ideia de proteção. A advocacia tradicional costuma dedicar enorme energia a imaginar cenários futuros, estudar legislação, jurisprudência e boas práticas para elaborar contratos, políticas e procedimentos capazes de reduzir riscos. Esse trabalho continuará sendo indispensável. A pergunta que me acompanha hoje é outra: e se ele não fosse o primeiro movimento do advogado, mas um dos últimos?
Antes de proteger através de documentos, talvez possamos cuidar das relações que esses documentos pretendem apoiar. Antes de escrever cláusulas defensivas, talvez possamos compreender expectativas, medos, intenções, necessidades e aquilo que permanece invisível nas reuniões. Um contrato pode ser muito mais do que um instrumento de defesa. Pode ser uma ferramenta para fortalecer confiança, clareza, responsabilidade compartilhada e capacidade de diálogo quando inevitavelmente surgirem as dificuldades. No Direito com Alma, costumo dizer que não buscamos proteger um lado contra o outro, porque essa separação é ilusória. Procuramos apoiar a relação que existe entre eles, entendendo que é dela que nasce a verdadeira segurança.
Essa mudança de perspectiva também deslocou meu interesse sobre o desenvolvimento do próprio advogado. Continuo acreditando profundamente na excelência técnica, mas ela passou a deixar de ser o ponto de partida. Passei a investigar quais qualidades internas tornam possível exercer o Direito de outro modo: abertura, curiosidade, flexibilidade, disponibilidade, humildade, discernimento, compaixão. Não como técnicas aprendidas em um curso de fim de semana, mas como capacidades cultivadas de dentro para fora, por meio do autoconhecimento e da presença. Curiosamente, quando essas qualidades amadurecem, os contratos costumam ficar mais claros, as conversas mais honestas e as soluções mais sustentáveis.
Meu incômodo talvez não estivesse na palavra 'proteção'. Estava no lugar ocupado pelo jurídico em campo. Por que colocá-lo no gol? Será que o advogado precisa entrar em cena apenas quando o risco já chegou à área? Ou poderia participar da construção das jogadas desde o início?
Porque empresas não prosperam apenas por terem contratos impecáveis. Prosperam quando conseguem construir relações suficientemente saudáveis para atravessar, juntas, as inevitáveis mudanças.
Mas isso exige um tipo diferente de advocacia. Não apenas um advogado estrategicamente inserido no negócio, mas alguém preparado para facilitar conversas difíceis, perceber o que não está sendo dito, sustentar perguntas antes de oferecer respostas e confiar que, quando as pessoas conseguem realmente se escutar, frequentemente carregam consigo os elementos da solução. Esse talvez seja o preparo menos ensinado nas faculdades de Direito — e um dos mais necessários nas organizações.
É esse o Direito que tenho buscado praticar. Um Direito que não abandona a segurança jurídica, mas compreende que ela não nasce apenas da previsão dos riscos. Nasce também da qualidade da presença do advogado, da sua capacidade de fortalecer conexões e de criar espaços onde confiança, responsabilidade e propósito possam emergir antes mesmo de serem transformados em cláusulas.
Sandra Brandão
Advogada e Sócia Fundadora do BOG Advogados



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