Três IAs, excelentes respostas e o risco de resolver o problema errado
- BOG Advogados

- há 16 horas
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Há empresários descobrindo que, com duas ou três ferramentas de Inteligência Artificial abertas ao mesmo tempo, conseguem fazer uma quantidade impressionante de coisas. Pesquisam mercados, confrontam estratégias, analisam contratos, pedem que uma IA critique a conclusão da outra, constroem cenários e chegam a soluções tecnicamente muito sofisticadas. E isso não deveria assustar quem presta serviços profissionais.
Deveria nos fazer uma pergunta melhor: onde, afinal, continua existindo valor humano quando o acesso ao conhecimento técnico deixa de ser escasso?
Tenho pensado bastante nisso, inclusive a partir de práticas contemplativas que venho estudando. E faço questão de esclarecer: não como uma tentativa de encontrar argumentos para proteger a advocacia da Inteligência Artificial. Ao contrário. Uso IA, reconheço sua potência e acredito que ainda estamos apenas começando a compreender o quanto ela poderá ampliar nossa capacidade de trabalhar, pesquisar e pensar.
O que me interessa é outra coisa.
As práticas contemplativas têm me levado a observar uma capacidade humana que talvez se torne ainda mais importante justamente porque temos cada vez mais respostas disponíveis: a capacidade de perceber o que ainda não entrou na pergunta.
Pense em uma empresa com dificuldade para expandir. Ela pode fornecer à IA seus números, explicar seu modelo de negócio, relatar a queda no ritmo de crescimento, apresentar sua estratégia comercial e pedir uma análise profunda. Pode pedir estudos sobre o setor, benchmarking, modelos de remuneração, estratégias de vendas, novos canais de aquisição, revisão da proposta de valor. Pode, inclusive, levar as respostas para uma segunda IA e pedir que encontre falhas. Depois, para uma terceira, solicitando caminhos alternativos. É muito provável que receba material excelente.
Mas existe uma pergunta anterior a todas essas respostas: o problema dessa empresa é realmente a expansão?
E se a dificuldade de crescer estiver revelando algo que não aparece nos números de expansão? Talvez as decisões estejam excessivamente concentradas nos sócios. Talvez a empresa tenha crescido sem que sua forma de decidir tenha crescido junto. Talvez existam processos que parecem estruturados, mas que, na prática, dependem do conhecimento de determinadas pessoas. Talvez conflitos recorrentes estejam sendo tratados como episódios isolados. Talvez a cultura da organização já não sustente o modelo que ela pretende escalar.
Nesse caso, uma estratégia tecnicamente brilhante para acelerar o crescimento pode produzir exatamente o efeito contrário: escalar também aquilo que ainda não está funcionando.
E aqui está, para mim, uma distinção importante. Não se trata de dizer que a Inteligência Artificial não sabe analisar governança. Sabe. Não se trata de dizer que não consegue identificar riscos societários, organizacionais ou contratuais. Consegue. Mas, para analisar determinado problema, é preciso que alguém perceba que aquele problema merece ser colocado diante dela. E nem sempre percebemos.
Nós também construímos nossas perguntas a partir daquilo que enxergamos. Se acredito que tenho um problema comercial, procuro soluções comerciais. Se acredito que preciso de um contrato, pergunto como estruturar esse contrato. Se acredito que determinada relação representa um risco, procuro maneiras de me proteger desse risco. A qualidade da resposta pode ser extraordinária e, ainda assim, permanecer dentro dos limites da percepção que deu origem à pergunta.
É justamente aí que minhas práticas contemplativas têm provocado reflexões interessantes sobre o trabalho jurídico. Contemplar, nesse contexto, não significa afastar-se da realidade empresarial.
Significa tentar enxergá-la melhor. Observar antes de concluir. Perceber os próprios filtros. Sustentar uma pergunta por algum tempo sem a urgência de imediatamente transformá-la em resposta. Notar relações entre acontecimentos que nossa mente inicialmente tratou como independentes.
E, talvez o mais difícil, reconhecer que aquilo que chamamos de “problema” já contém uma interpretação da realidade.
Isso é extremamente concreto quando aplicado a uma empresa. Um advogado pode receber uma solicitação: “Preciso de um contrato para isso.” E produzir um excelente contrato. Mas pode também perguntar:
Por que essa relação precisa desse contrato agora? O que aconteceu antes de essa demanda chegar ao jurídico? Que comportamento estamos tentando organizar? Onde essa relação provavelmente vai tensionar? O documento resolve o problema ou apenas formaliza uma estrutura que já nasceu frágil?
Da mesma forma, diante de um conflito, talvez a primeira pergunta não seja “como proteger juridicamente a empresa?”, mas “o que esse conflito está revelando sobre essa relação?”.
Diante de uma dificuldade de expansão, talvez não seja “qual modelo permitiria crescer mais rápido?”, mas “o que precisa estar preparado para que esse crescimento seja saudável?”.
Esse tipo de olhar não substitui conhecimento técnico. Muito menos tecnologia. Ele soma. E talvez seja justamente essa a conversa mais interessante sobre Inteligência Artificial e serviços profissionais.
Durante muito tempo, parte importante do valor de um especialista estava no acesso a um conhecimento que o cliente não possuía. Esse mundo está mudando rapidamente. Hoje, um empresário curioso, inteligente e disposto a pesquisar pode chegar a uma reunião munido de análises que, poucos anos atrás, exigiriam horas de trabalho especializado. Isso muda nossa profissão. E penso que resistir a essa mudança seria desperdiçar uma oportunidade extraordinária. Porque talvez ela esteja nos obrigando a voltar para uma dimensão mais profunda do nosso trabalho.
Conhecer o negócio.
Conhecer sua história.
Compreender suas relações.
Perceber padrões.
Fazer conexões.
Desconfiar de diagnósticos aparentemente óbvios.
Ter repertório para reconhecer que algo importante está acontecendo antes mesmo de saber exatamente como nomeá-lo.
E, então, usar também a Inteligência Artificial para investigar melhor.
Talvez o profissional relevante daqui para frente não seja aquele que sabe mais coisas do que a máquina. Essa disputa sequer me parece interessante. Talvez seja aquele que consegue somar ao conhecimento disponível uma qualidade de presença e discernimento capaz de ampliar o que está sendo visto. Quanto melhores forem as respostas que tivermos à nossa disposição, menos valor haverá em simplesmente possuí-las. E mais importante será saber quando uma excelente resposta está resolvendo apenas uma parte do problema.
Só que esse lugar exige qualidades que vão além do domínio técnico — e isso não vale apenas para advogados. Exige presença para realmente escutar, em vez de apenas procurar a informação que confirme uma hipótese. Curiosidade para entrar em um problema sem presumir que já sabemos o que está acontecendo. Autopercepção para reconhecer nossos próprios vieses. Coragem para permanecer algum tempo no não saber. Sensibilidade para perceber relações, tensões e movimentos que ainda não ganharam nome. E abertura para caminhos que talvez não estejam entre as primeiras alternativas disponíveis.
São capacidades importantes para quem aconselha. Mas talvez sejam ainda mais importantes para quem decide.
O empresário vive pressionado por metas, resultados, crescimento, caixa, pessoas, decisões. Naturalmente, desenvolve uma enorme capacidade de agir e resolver. Há sempre alguma coisa pedindo resposta. Mas quanto espaço existe, nessa rotina, para desenvolver a capacidade de perceber antes de responder? Quanto tempo dedicamos a observar nossos próprios filtros, questionar aquilo que já tomamos como certo, escutar sem antecipar a solução e sustentar uma pergunta antes de correr para resolvê-la? Parece contraditório falar em pausa em um ambiente que exige velocidade. Mas talvez seja justamente essa pausa que nos permita formular perguntas melhores — e, com toda a potência tecnológica que agora temos à disposição, tomar decisões melhores.
Se estamos investindo tanto tempo em aprender a usar Inteligência Artificial para obter respostas cada vez melhores, talvez valha uma provocação: quanto estamos investindo em nós mesmos para sermos capazes de fazer perguntas melhores?
Sandra Brandão
Advogada e Sócia Fundadora do BOG Advogados


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